Saúde Mental nos Adultos

O Luto e a Realidade

A saúde mental como um todo é muito abrangente. É difícil falar de saúde mental e pensar apenas em aspectos separados de doença, uma vez que saúde mental compreende também, e principalmente a ausência dessa doença.

Em minha percepção, assim como na da OMS, ela é muito mais do que um diagnóstico precoce e um tratamento adequado, mas caracteriza-se grandemente pela qualidade de vida do sujeito e é claro, essa qualidade de vida é, larga escala, uma concepção individual.

Dessa forma, quando este sujeito tem uma concepção de algo e isto se mostra equivocado, frequentemente este sofre em algum grau, com o luto.

Segundo Freud (1914[1916]), em seu texto sobre Luto e Melancolia  afirma que o luto não se caracteriza apenas pela perda de alguém importante ou de um objeto que simbolize alguém, mas ele também se dá pela perda da liberdade ou de seus ideias e assim por diante.

Diante das dificuldades da vida moderna, onde mudanças ocorrem em um piscar de olhos, é muito normal sofrermos com perdas frequentes. Umas maiores, outras menores, mas independente do tamanho de cada perda, cada um sentirá de acordo com seu íntimo, totalmente individualizado.

Quando então este sujeito entra em luto com determinada perda, este, segundo Kübler-Ross, passa por 5 estágios a saber: a negação, a raiva, a depressão, a barganha ou negociação e então a aceitação.

O primeiro estágio então, a negação  que segundo Freud ocorre quando o sujeito rejeita a ideia e recusa-se a encarar a perda ou a experiência que confronta sua vida representativa até o momento. Este decide-se por negar a situação pois, não confia em sua capacidade de resolver a contradição presente na realidade, por meio do pensamento. O sujeito trata a realidade presente como incompatível e que não pode ser  realizada simbolicamente por ele, tentando desta forma erradicar o acontecimento real no caráter simbólico.

Podemos observar essa negação em frases tais como “Eu estou bem”, “Parece que é mentira”, “Não consigo acreditar que isso aconteceu”. Pode partir ainda para graus mais elevados que passam da negação simbólica para a real, uma vez que este sujeito evita se aproximar do objeto de sua negação ou realidade atuante, como por exemplo, na perda de um ente familiar querido, este então, afasta-se da família e começa a submergir fortemente no trabalho ou na sua vida social, negando a esfera familiar.

Quando então, este sujeito não é acometido por patologias que o mantém no simbólico, depois de algum tempo, esta negação passa a não mais se sustentar devido a pressão da realidade sobre tal. Desta forma ele passa a ser inundado por sentimentos de raiva e revolta, geralmente contra esta realidade.

Nesta fase também, podemos ver tanto se instalar o vitimismo, com necessidade de expiação de culpa, quanto seu oposto, a culpabilização de outrem e a agressividade contra tal. 

Em algumas pessoas, uma ou outra face se mostra, porém temos também aquelas com traços patológicos, onde as duas faces podem se mostrar, podendo caracterizar desde personalidades borderline a bipolaridades, entre outros.

Lembrando sempre que estes traços permanecem atuantes enquanto há um conflito mental que não encontra solução para o seu desfecho mental sobre a realidade. 

Observo frequentemente em consultório que, a rigidez do mindset, postulada por Carol S. Dweck, pode tornar essa fase de demorada a permanente, dependendo da disposição do paciente a se abrir, tanto a mudança interna quanto a realidade.

Uma vez que a raiva se instale e se transfira para essa realidade independente de como ela se mostre, passa a atuar também, de forma tanto conjunta quanto separada a negociação ou barganha.

Quando então a negociação ou barganha se instalam de fato, caracterizando o terceiro estágio apontado por Klübler-Ross, o sujeito, já não rejeitando a ideia, mas ainda recusando-se a encarar a perda ou a experiência confrontante, tenta por meio da barganha externa, lidar com a contradição psíquica interna que a realidade lhe impõem. Esta barganha serve como  um mediador para seu conflito entre real e simbólico, atuando ainda como uma forma de medir forças contra a realidade.

Estes comportamentos geralmente são direcionados aleatoriamente, independente da conexão com a perda ou não, uma vez que a incapacidade de lidar com o conflito faz este sujeito permanecer fixado neste, transbordando todos os limites entre as relações. Isto é, tendo este conflito uma vez se instalado, a vida do sujeito como um todo é afetada.

No momento em que este sujeito percebe que tal barganha e raiva não são forças suficientes para alterar a realidade, instala-se o sentimento de depressão.

Neste estágio o sujeito pode se entregar a dor intensa e ao sofrimento que a perda lhe infringe. É um momento de profunda introspecção onde muitas vezes ocorre uma desconexão com as pessoas e a realidade vigente a sua volta. 

Ainda não há uma concordância com essa realidade atuante, mas sim um profundo esvaziamento e entrega a essa tristeza. Às vezes nesta fase, ainda se mostram vitimismo. Aqui, geralmente a raiva já não se faz mais presente, uma vez que seu conjunto psíquico já a identificou como inútil e apenas a desesperança e a tristeza atuam.

Então, por fim, quando a própria psique vê como inútil o confronto com a realidade e há uma disposição para a concordância de espontânea vontade é que se inicia a fase final de aceitação, onde se restabelece o equilíbrio emocional  e a força para continuar vivendo.

Segundo Klüber-Ross, essas fases não são necessariamente ordenadas dessa maneira e nem todas as pessoas passam por ela.

O que percebo em consultório é que, a indisposição para lidar com a realidade em todo ou qualquer aspecto como algo que eu não controlo, faz com que o luto se instale em suas variadas faces. 

Muitas pessoas hoje em dia sofrem mais com o luto e os conflitos mentais sobre os aspectos profissionais e a falta de sucesso que imaginariamente construíram como ideal em contraposição com a realidade que se apresenta, do que com perda de entes queridos. 

Da mesma forma, podemos observar o luto em relação à infância perdida ou mesmo em relação a incapacidade de mudar a vida de alguém – geralmente dos próprios pais, criando enraizamentos e emaranhamentos que são deslocados para outros relacionamentos ou situações de vida.

A incapacidade psíquica de aceitação ou concordância com a realidade como ela é pode então, causar o luto nas mais variadas circunstâncias. 

Referências
FREUD, Sigmund.  [1914-1916] Luto e Melancolia. Obras Completas Vol. 12, Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Kubler-Ross E. Sobre a morte e o morrer. Rio de Janeiro: Editora Martins Fontes; 1985.